A centralidade da educação para a sustentabilidade - Trama
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A centralidade da educação para a sustentabilidade

*Por Miriam Duailibi

Uma sociedade sustentável é projetada de tal maneira que seu modo de vida, seus negócios, sua economia, suas estruturas físicas, sua tecnologia não interfiram com a inerente habilidade de natureza manter a teia da vida.
(Fritjof Capra)

A profunda crise socioambiental que caracteriza nossa época tem origem em uma complexa e antiga rede de mediações conflituosas entre o mundo humano e o mundo natural. Inúmeros estudos têm demonstrado a inviabilidade das atuais formas de organização econômica e dos recentes padrões de consumo. Assiste-se assim, pelo acesso a informações científicas, jornais, internet, televisão, o registro e o desenrolar de uma morte diariamente anunciada: extinção da biodiversidade, catástrofes ambientais, mudanças climáticas, contaminação e poluição das fontes da vida.

Mais que isso, a crise civilizatória atual atinge todos os campos da vida cultural. Segundo CAPRA (1996, p19) “(…) uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes na história da humanidade. Pela primeira vez, temos que nos defrontar com a real ameaça de extinção da raça humana e da vida no planeta.” Juntamente com a percepção da crise, cresce a consciência da necessidade de mudança profunda dos comportamentos e das políticas.

Generaliza-se também a percepção da incapacidade das formas organizacionais e culturais predominantes na sociedade para estimular e nutrir a emergência de novas estruturas e processos adequados a sustentabilidade, já que são elas que reproduzem e dão sustentação à crise socioambiental. Identifica-se assim, a necessidade de formação diferenciada para nutrir os processos emergentes que apontam para a re-invenção de um futuro comum, mais justo e saudável, inclusivo de todas as formas da vida.

Trata-se de educar lideranças ativas e potenciais, de todos os setores, para que contribuam efetivamente com as dinâmicas sócio-ambientais de um novo paradigma focado na sustentabilidade. Na última década, aumenta também a certeza que a superação da crise socioambiental passa por uma mudança paradigmática: do paradigma tecnoindustrial para o de sustentabilidade. Essa mudança qualitativa na abordagem da vida cultural e natural só ocorre mediante uma formação que integre conhecimento especializado de alta qualidade com valores éticos e ecologicamente responsáveis.

Por isso, a centralidade que a educação para a sustentabilidade (ou para sociedade sustentáveis) assume para a mudança, é de certa forma, natural. Está diretamente relacionada à necessidade da formação de novos valores e atitudes e ao desenvolvimento de novas competências e habilidades. Os conteúdos e temas dessa educação emergem dos desafios históricos gerados pela crise socioambiental e riscos a ela associados e abrangem o local e o global.

[1] “Entende-se por desenvolvimento sustentável aquele que concilia métodos de proteção ambiental, eqüidade social e eficiência econômica, promovendo a inclusão econômica e social dos indivíduos nos circuitos de produção, cidadania e consumo. Esse marco conceitual incorpora, ainda, seis dimensões de sustentabilidade: (i) uma sustentabilidade ambiental e ecológica; (ii) uma sustentabilidade social; (iii) uma sustentabilidade política; (iv) uma sustentabilidade econômica; (v) uma sustentabilidade cultural; (vi) uma sustentabilidade espacial; (vii) uma sustentabilidade institucional. (Agenda 21 – Infraestrutura e Integração regional).

Tendo como missão contribuir para a construção de sociedades sustentáveis, o Ecoar criou o Centro Ecoar de Educação para Sustentabilidade, CEDES, um espaço de discussão e aprendizagem sobre novas metodologias, pedagogias e tecnologias sociais capazes de dar respostas às mais pungentes questões do novo século. Embasados nos fundamentos do pensamento sistêmico, o CEDES tem, entre seus parceiros o CEL, Center for Ecoliteracy de Berkley, Califórnia, idealizado e gerido pelo físico e ecologista Fritjof Capra.

Cientes de que nas próximas décadas a sobrevivência da humanidade vai depender da nossa ecoalfabetização, ou seja, de nossa habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e de viver de acordo com eles, o Ecoar realiza pesquisas, estudos para reeditar a pedagogia da alfabetização ecológica, criada pelo CEL, em escolas rurais e urbanas no Brasil.

Educar para uma vida sustentável é promover o entendimento de como os ecossistemas sustentam a vida e assim obter o conhecimento e o comprometimento necessários para desenhar comunidades humanas sustentáveis.

*Coordenadora-geral do Ecoar, Miriam Duailibi é uma das principais ativistas ambientais brasileiras da atualidade. Autora de diversos livros, artigos e textos sobre o tema, é reconhecida internacionalmente por seus inovadores projetos socioambientais. Fundou em 92 a Ecoar, organização sem fins lucrativos da qual faz parte o Instituto Ecoar para Cidadania, o Centro Ecoar de Educação para Sociedades Sustentáveis e o a Associação Ecoar Florestal, responsável pela produção anual de 2 milhões de mudas para a reposição de florestas no Brasil.


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