*Por Rodrigo Gallo
À medida que a Copa do Mundo de 2026 começa a mobilizar torcedores ao redor do mundo, muitos insistem em repetir uma frase bastante conhecida: esporte e política não se misturam. A realidade, porém, conta outra história. A Copa nunca foi apenas um torneio de futebol – assim como as Olimpíadas. Ela é também um fenômeno político, econômico e geopolítico, capaz de reverberar tensões internacionais, disputas de poder e transformações globais.
Os acontecimentos das últimas semanas deixam isso evidente. Os Estados Unidos, uma das três sedes do torneio, adotaram políticas migratórias que já afetam diretamente a competição. Integrantes da delegação iraniana enfrentaram dificuldades para obter vistos, parte da equipe precisou transferir sua base para o México e autoridades esportivas do país denunciaram tratamento discriminatório. Ao mesmo tempo, torcedores e oficiais de diferentes nacionalidades relataram obstáculos para ingressar em território norte-americano, transformando um evento esportivo em mais um capítulo dos debates sobre fronteiras, segurança internacional e soberania.
O caso iraniano é particularmente simbólico. Num momento de forte tensão entre Washington e Teerã, o simples deslocamento de jogadores, dirigentes e torcedores tornou-se uma questão diplomática. O futebol, nesse contexto, deixa de ser apenas entretenimento para se tornar um espaço onde rivalidades internacionais continuam negociadas.
Mas a relação entre Copa do Mundo e geopolítica vai muito além dos conflitos diplomáticos mais evidentes. Em diversos momentos da história, o torneio serviu para expressar mudanças na ordem internacional. Quando a seleção da Croácia estreou na Copa do Mundo em 1998, por exemplo, não estava apenas disputando partidas de futebol em prol do entretenimento dos torcedores. A seleção estava simbolizando a consolidação de um novo Estado surgido após o colapso da Iugoslávia. Da mesma forma, a participação de países recém-independentes ao longo das últimas décadas representou uma forma de reconhecimento internacional e afirmação de soberania.
Quando a Bósnia e Herzegovina disputou sua primeira Copa do Mundo, em 2014, sua participação foi celebrada não apenas como uma conquista esportiva, mas como um símbolo da reconstrução de um país que duas décadas antes havia sido devastado por uma das guerras mais violentas da Europa contemporânea. A seleção tornou-se uma representação da própria sobrevivência do Estado Bósnio e de sua busca por reconhecimento e estabilidade no cenário internacional. Em outra dimensão, os países do Golfo transformaram o futebol numa importante ferramenta de projeção de poder. Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passaram a investir bilhões de dólares em clubes, competições, patrocínios e grandes eventos esportivos, utilizando o esporte como instrumento de projeção global para ampliar sua influência, diversificar as economias e fortalecer a imagem internacional.
Outro exemplo pouco lembrado envolve a própria escolha das sedes. A disputa para sediar uma Copa do Mundo costuma mobilizar governos, empresas privadas e diplomatas durante anos. Receber o torneio significa projetar uma imagem internacional, atrair investimentos e demonstrar capacidade organizacional e de Engenharia. Não por acaso, países emergentes frequentemente enxergam o evento como uma ferramenta de soft power, utilizando o esporte para fortalecer sua reputação global.
A Geopolítica também aparece nas questões econômicas. Em números, o Mundial de 2026 será o maior da história, com 48 seleções e 104 partidas. Isso envolve negociações complexas sobre infraestrutura, segurança, transporte, telecomunicações, direitos de transmissão e circulação de pessoas. Em outras palavras, a Copa funciona como uma gigantesca operação internacional que depende da cooperação e, muitas vezes, dos conflitos entre governos, empresas e organizações multilaterais.
Mesmo temas aparentemente distantes do futebol acabam influenciando o torneio. Questões migratórias, políticas de segurança, sanções econômicas, relações diplomáticas e até debates sobre direitos humanos passaram a fazer parte da preparação para o Mundial. Organizações internacionais já alertam para possíveis impactos das políticas de imigração, fiscalização de fronteiras e monitoramento de visitantes durante a competição.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que a política invade o esporte. Na verdade, o esporte sempre esteve inserto na política. Afinal, seleções representam Estados nacionais, torcedores atravessam fronteiras, governos financiam infraestrutura e organismos internacionais estabelecem regras para a realização dos torneios.
A Copa do Mundo continua um espetáculo esportivo extraordinário – não apenas para quem gosta de futebol. Ela também funciona como uma janela privilegiada para observar o mundo. Ao acompanhar os jogos, vale a pena prestar atenção não somente no que acontece dentro dos estádios. Muitas vezes, as histórias mais reveladoras estão acontecendo nos bastidores. E compreender essas conexões é fundamental para entender não só o futebol, mas também a própria dinâmica das relações internacionais no século XXI.
*Rodrigo Gallo é Cientista político e coordenador dos cursos da Área de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).