Muitos já escreveram ou falaram sobre a importância do livro e da literatura e da transformação que a leitura pode ocasionar na vida de uma criança. Um exemplo disso: há pouco tempo, um garoto de 12 anos de uma escola pública do litoral paulista viveu uma experiência transformadora. Depois de anos amargando frustração e dificuldades, percebeu que já conseguia entender o que escrevia, o que outros colegas escreviam e, principalmente, que os outros compreendiam o que ele estava escrevendo.
O mais interessante é que essa criança já freqüentava a escola há seis anos e estava ainda cursando a 2ª série do Ensino Fundamental. Será que a competência leitora e de escrita desse menino mudou de uma hora para outra? Sabemos que não. Mas, então, o que aconteceu para que essa experiência libertadora ficasse tão marcada, positivamente, na vida dessa criança e de sua professora?
Esse caráter libertador é fruto de uma inovação didática que resultou num neologismo: o “transdidatismo”. O prefixo “trans” explica muito bem esse novo conceito. Numa primeira análise, remetemos seu significado (do grego “ir além de”) ao conceito de ir além do didático, ir além do paradidático, no sentido de não só integrar, mas também ressignificar, com um toque de inovação, esses conhecidos gêneros de livro.
Um livro que fundamentalmente “transgride” (mais uma explicação para o “trans”) as relações tradicionais de ensino–aprendizagem, baseando-se numa perspectiva que prioriza elementos diferenciados – como a literatura, a reflexão, a postura empreendedora diante dos fatos cotidianos – e, principalmente, numa abordagem direta de formação de valores como ética, cidadania, respeito e valorização da vida.
Se o assunto são valores humanos essenciais que todo cidadão deve cultivar e praticar, nada melhor do que trazer para o livro transdidático os temas transversais preconizados pelo MEC. Novamente, o prefixo “trans” desse novo gênero de livro ganha força.
Como última acepção que o “trans” sugere está a transdisciplinaridade. A abordagem “transdidática”, em sala de aula, preconiza ações de construção global de conhecimento, sem compartimentalizar os conteúdos das áreas, respeitando os diferentes ritmos de aprendizagem.
Utilizando a literatura como veículo prioritário desde as séries iniciais, valoriza-se a construção da competência essencial: a linguagem. O domínio da linguagem dá à criança autonomia na leitura do mundo e dos textos e, como conseqüência, é ponto de partida para uma efetiva construção de conhecimentos. Quem constrói seus conhecimentos se torna protagonista de suas ações, sendo essa uma das qualidades fundamentais que todo educador deve buscar em seu cotidiano.
Nos livros transdidáticos, o gosto pela leitura é incentivado por meio de histórias literárias agradáveis, bem escritas e motivadoras. A literatura transdidática instrumentaliza o professor para exercer uma dinâmica transdisciplinar permanente e efetiva. Os alunos são instigados o tempo todo a se expressar. Os temas em geral são tratados de maneira não-dogmática e com o objetivo de valorizar uma aprendizagem plural e problematizadora. A cada momento, são incentivadas a expressão e a troca de experiências e opiniões, sentimentos, necessidades e valores.
Todo ser humano, adulto ou criança, tem necessidade de auto-expressão. Em tempos de uma linguagem cada vez mais interativa, verifica-se uma integração permanente entre autor e leitor. Quando uma criança é respeitada por ser protagonista de suas ações, autora das próprias idéias, partícipe efetiva dos contextos em que está inserida, pode-se dizer que um importante papel da escola (e da família) está sendo cumprido: a construção da cidadania.
O processo de aprendizagem vem sendo “pasteurizado” nas escolas brasileiras e os resultados nos índices de letramento, em todas as áreas, não são satisfatórios, uma vez que os alunos levam muito tempo para adquirir competências essenciais. As avaliações nacionais e internacionais demonstram isso seguidamente.
Muitos fatores influenciam esses baixos resultados, em especial a falta de incentivo para aprender e a utilização de materiais didáticos fragmentados e descontextualizados. Quando uma criança começa a ler, a escrever e a se posicionar diante de sua turma, acontece uma mudança de comportamento que vai levar à promoção de sua auto-estima. Isso fará toda a diferença na trajetória escolar desse aluno.
Para o garoto de 12 anos ao qual me referi no início do texto, a escola nunca mais será a mesma. Agora, ele tem certeza de que pode aprender. Os tempos de frustração e dificuldades na escola ficaram para trás.
(*) Áureo Gomes Monteiro Junior é educador e diretor-geral da Editora Aymará, com sede em Curitiba. Durante nove anos atuou como Diretor do Portal do Grupo Positivo (sistema de ensino), sendo o responsável pelo gerenciamento, desenvolvimento e comercialização de projetos em tecnologia educacional.
Sobre a Editora Aymará
A Editora Aymará é uma empresa do Grupo Sagarana criada com o objetivo de gerir de maneira inovadora e eficiente empreendimentos educacionais. Formada por uma equipe de colaboradores com vasta experiência na área editorial e no setor educacional, a Editora tem sua sede instalada em Curitiba e possui ainda unidades de negócios em Salvador, Brasília, Porto Alegre, São Carlos, Santo André e Fortaleza.
Baseada no desenvolvimento do indivíduo, no respeito à diversidade e na valorização da relação ensino-aprendizagem, a Aymará investe em projetos que promovem a construção do conhecimento e o aprimoramento tecnológico nos mais variados setores educacionais, da educação infantil ao ensino superior.
Atualmente, o principal projeto da Aymará é o Programa Cidade Educadora, focado na construção da cidadania, na formação de valores éticos e numa postura socialmente responsável. O Cidade Educadora está presente em diversas escolas das redes públicas municipais, abrangendo cerca de 4 mil estudantes do ensino fundamental. Uma das metas é integrar aproximadamente 150 mil alunos ao Programa até o final de 2008.
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