O protocolo de intenções firmado entre o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP) e o governo russo é mais um passo para fortalecer o sistema de monitoramento de satélites GLONASS (sigla russa de Sistema de Navegação Global por Satélite). A Companhia Russa de Pesquisa e Produção de Sistemas e Instrumentos de Precisão viabilizará a instalação da tecnologia para uso dos pesquisadores da entidade científica brasileira, mas ao mesmo tempo colocará em prática o fortalecimento da rede frente ao seu principal concorrente, o americano GPS (Global Positioning System).
O GLONASS foi concebido na década de 1970, tanto para fins militares quanto civis, e possui aplicações na terra, no ar e no mar, funcionando em qualquer lugar alcançado por sinais de satélites. O recurso é disponibilizado gratuitamente em todo o mundo e pode ser utilizado para observação de condições meteorológicas, construção de estradas, operações de resgate, desastres naturais, ou simplesmente para orientar rotas e atender demandas de posicionamento geográfico.
Com o fim da União Soviética na década de 1990, o GLONASS foi colocado de escanteio até ser retomado como prioridade sob o governo Vladimir Putin. Foi o programa mais caro financiado pela Agência Espacial Russa, que custou cerca de um terço do orçamento de pesquisa em 2010. Em outubro de 2011, passou a operar em escala mundial com 24 satélites em órbita, divididos em três camadas, que possibilitam cobertura global até hoje.
A estratégia russa de instalar máquinas que monitorem seu sinal tem motivos que vão além da cooperação tecnológica. Para o Brasil, a vantagem será o intercâmbio de informações, científicas e técnicas, obtidas com o uso do sistema que, supera o modelo de navegação por satélites mais difundido no mundo, em quesitos como "abertura" e estabilidade. Para a Rússia, o uso dos satélites pelo grupo de países dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ajudará a fortalecer a rede, deixando-a mais competitivo no mercado.
Em tese, o maior uso do GLONASS frente ao GPS tem condições de acontecer rapidamente. Diferente do sistema americano, o russo não restringe a navegação por áreas consideradas estratégicas ou de segurança. Ademais, o GLONASS tem seu movimento orbital acompanhando a rotação da Terra, característica que lhe confere mais estabilidade.
Fora do campo científico, o GLONASS vem conquistando mais usuários no Brasil e no mundo. A crescente familiarização se deu a partir da implantação do sistema nos smartphones modernos, em aplicativos de geolocalização. Na prática, o usuário não precisa escolher entre um sistema em detrimento do outro, já que é possível utilizar ambos nos telefones celulares para se obter um aumento de precisão na localização de quase 50%. A única perda que ocorre ao optar por receber o posicionamento por meio do alinhamento de satélites das tecnologias GLONASS e GPS é a da capacidade de duração da bateria dos aparelhos, que se esgota mais lentamente quando o usuário utiliza um dos sistemas isoladamente.
Agora, o recente acordo do governo russo com o ITEP ratifica o interesse em promover a tecnologia junto a este importante canal de democratização do conhecimento. A ideia é fazer do GLONASS uma ferramenta em prol da ampliação do potencial de alcance e posicionamento das iniciativas do ITEP frente aos desafios globais, que a cada dia exigem maior poder de informação e precisão na tomada de iniciativas e decisões estratégicas, ainda mais quando o foco das ações está na inovação.
Ivan Dornelas é diretor-executivo do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP).
Sobre o ITEP
O Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP) é uma organização social sem fins lucrativos, que oferece soluções tecnológicas para o setor produtivo de Pernambuco e do Brasil. Criado em 1942, presta serviços para iniciativa privada e órgãos públicos, além de realizar convênios com entidades financiadoras de pesquisa, como CNPq e FINEP.
Com 15 laboratórios e mais de 500 funcionários, a entidade executa projetos e pesquisas de natureza básica, aplicada e tecnológica e apoia o empreendedorismo e a educação para a ciência. Seus centros estão capacitados para análises nas áreas de segurança alimentar, química, biotecnologia, energia, meteorologia, geoinformação, tecnologia da informação e comunicação, e logística.