São Paulo, 18 de julho de 2006 – A paixão pela fantasia começa desde cedo e os contos de fada fazem parte da infância do ser humano. No entanto, mais que distrair e desenvolver a criatividade, as histórias infantis ativam mecanismos inconscientes relacionados à vida familiar, ao desenvolvimento das identidades sexuais e ao amor. Discutir o papel formativo dessas histórias no crescimento das crianças é a proposta do livro “Fadas no Divã”, dos psicólogos Diana e Mario Corso, publicado pela Artmed Editora.
A obra está entre os dez finalistas ao 48º Prêmio Jabuti, o mais importante evento do gênero da América Latina, na categoria de Melhor Livro de Educação, Psicologia e Psicanálise. O livro já vendeu mais de seis mil exemplares desde o seu lançamento em outubro de 2005, número bastante considerável para uma obra cientifica.
Para Adriane Kiperman, Diretora Editorial da Artmed, é muito importante participar e estar entre os finalistas de um importante prêmio que reúne as principais editoras, autores e profissionais do livro do país. “Sempre priorizamos a produção pioneira e qualificada de textos de formação e atualização científica e profissional diferenciados, aliados a um padrão gráfico extremamente cuidadoso. Estamos muito satisfeitos em ver esse trabalho reconhecido”.
Leitura psicológica de contos antigos e contemporâneos
O livro é envolvente e elucidativo, relacionando as mais importantes histórias infantis, antigas e modernas, com os conhecimentos psicanalíticos. O texto, apesar de possuir consistência técnica, apresenta o linguajar de uma obra de literatura e é destinado a profissionais da área e também ao público leigo que por razões de trabalho, paternidade ou simplesmente por curiosidade querem saber mais sobre o tema.
A primeira parte faz uma leitura psicológica dos principais contos de fadas ocidentais e busca elucidar tanto os mecanismos psicológicos que os mantiveram vivos, quanto os motivos pelos quais eles têm tanto êxito com as crianças. Na segunda parte, os autores abordam as histórias modernas como Peter Pan, Pinocchio, Ursinho Pooh, os personagens da Turma da Mônica, Harry Potter, Charlie Brown entre outros, para demonstrar como a modernidade forjou histórias infantis que nada devem aos velhos contos de fada. “São histórias de fantasia que tem em comum o potencial de ajudar as crianças a passar pela infância e também auxiliar os adultos a lidarem com os resquícios infantis que levam consigo pela vida afora”, observam os autores.
“Fadas no Divã” pode ser lido de duas formas: aleatória ou sistemática. A primeira é plenamente possível, pois cada elemento é esclarecido no momento em que surge. Segundo Diana Corso, é a forma ideal para quem se interessa por literatura e quer saber mais sobre seus contos ou histórias preferidas. Já na sistemática, o leitor perceberá um tipo de roteiro do desenvolvimento infantil até a adolescência. É útil para aqueles que desejam entender a infância e trabalham ou estudam a psicanálise, psicologia, psiquiatria, pedagogia ou demais disciplinas relacionadas.
O Rei Sapo
A história sobre o Rei Sapo, o mais célebre conto de um noivo animal e da transformação do repulsivo em atraente, é um dos destaques da obra. No texto, um monarca enfeitiçado depende do afeto de uma princesa para voltar à forma original. “Uma das mais clássicas cenas evocadas pelos contos de fada é justamente a da bela princesa beijando um repulsivo batráquio, permitindo-lhe o retorno da metamorfose”, observa Diana Corso. Segundo a autora, a possibilidade de um sapo virar príncipe é um bom argumento para o fato de que as aparências não devem ser impedimento para uma relação. “Seguidamente as mulheres recorrem a essa história como metáfora, quando argumentam que vale a pena investir em determinado pretendente, apostando mais no que ele se tornará do que naquilo que é no presente”, esclarece.
A leitura do conto, tal como estabelecido pelos autores, os irmãos Grimm, surpreende os leitores com um fato importante: a princesa também tem lá sua feiúra. Trata-se da filha mais jovem do rei, como sempre, a mais bela de todas as princesas. Nos dias quentes, ela tinha por hábito brincar com sua bolinha de ouro perto de uma fonte, mas uma vez deixou cair seu precioso objeto na água profunda, fazendo o brinquedo desaparecer. Desesperada, pôs-se a chorar como um bebê, aos gritos. Nesse momento surge um sapo, prometendo alcançar-lhe a cobiçada bola, mas somente se ela concordar em levá-lo para a casa dela. Além disso, teria de lhe aceitar como companheiro de brincadeiras, compartilhar com ele seu prato e admitir sua companhia até na própria cama. A jovem concordou, mas sem a mínima intenção de honrar uma promessa feita a tão desprezível criatura – e aqui ela se mostra uma pessoa bem pouco bonita. Depois de obter a bola de volta, ela foge correndo do sapo, mas ele vai até o castelo e bate à porta, exigindo o cumprimento da palavra da princesa caçula.
Horrorizada com a aparição do sapo, a princesa relata o ocorrido ao pai que, ao invés de apoiá-la, exige-lhe que faça jus à promessa. Assim, tomada de nojo, é obrigada a admitir o batráquio em sua mesa e em sua cama; na hora de dormir, ela não agüenta mais o assédio dele e, raivosa, o atira contra a parede. Ele, então, se transforma num belo príncipe e ela, numa enamorada princesa.
“É surpreendente que o gosto popular recente tenha se apegado a uma cena que simplesmente não existe na narrativa clássica dos irmãos Grimm: a da princesa beijando o sapo. Não só nossa heroína jamais se disporia a isso, como também a transformação não era provocada por um ato de amor e sim de violência”, observa a autora. Na atual versão popular, o sapo esclarece à jovem que ele é um príncipe enfeitiçado e, em nome da perspectiva da transformação, ela se sacrifica e vence o nojo, beijando-o. Já nesta narrativa mais antiga, a princesa se envolve com o animal sem esse consolo, a aparição do belo príncipe é uma surpresa que a recompensa pelos maus bocados por que passou.
Os psicólogos Diana e Mario Corso esclarecem que ao sermos fisgados pelo amor, temos como conseqüência a saída da casa dos pais para vivermos a relação, porém, isso nem sempre é pacífico. Por mais que os contos insistam que o amor é uma promessa capaz de recompensar pela infância e pela família perdidas, partir é mais fácil para os heróis que têm madrastas bruxas, pais fracos, egoístas ou que são mesquinhos movidos pela fome. Quando o lar convida a ficar, sair será uma operação dolorosa e brusca, que pressuporá algum tipo de expulsão, comumente personificado por um casamento imposto contra os desejos da jovem.
Na história do Rei Sapo, o pai da princesa lhe impõe a companhia do ser viscoso em seu leito, submetendo-a à violência desse convívio. O gesto agressivo da jovem está à altura do caráter torturante da situação em que se viu envolvida, mas também é um gesto dramático de rompimento, de revolta contra a autoridade do pai e contra as exigências do sapo. A independência não pode ser construída de submissão, crescer é também perceber a limitação da força e do poder da autoridade parental.
A versão popular do beijo não enfatiza o ato de rebeldia da princesa. Naquele caso, a jovem se dispõe a uma troca vantajosa: ela faz um esforço para vencer o nojo em nome de um amor possível. De qualquer maneira, ela se submete, mas o fará somente se isso lhe convier. Um sacrifício movido por uma razão pragmática não é um ato de obediência, é uma troca.
De qualquer maneira, o que é conhecido como um beijo, originalmente foi escrito como um arremesso, sendo assim, não há como suavizar essa trama. Para ocorrer, um amor depende de que um rompimento com a família de origem esteja em curso ou consumado, é necessário que o amor entre pai e filha tenha encontrado uma nova dimensão.
Serviço
Livro: Fadas no Divã
Autor: Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso
Formato: 20cm x 25cm
N. de páginas: 328
Preço: 62,00
Sobre os autores
Diana Lichtenstein Corso é psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formada em psicologia pela UFRGS há duas décadas, trabalhou com crianças e no campo dos problemas de desenvolvimento infantil. Atualmente atende jovens e adultos em seu consultório particular.
Mário Corso é psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formado em psicologia pela UFRGS há duas décadas, atualmente atende adultos em clínica privada. Em 2002 lançou Monstruário – Inventário de Entidades Imaginárias e de Mitos Brasileiros pela editora Tomo. Numa tentativa de revitalizar figuras esquecidas do folclore nacional.
Mário e Diana são casados e pais de duas jovens, Laura e Júlia, cuja infância muito contribuiu para a construção deste livro. Atualmente ambos dedicam-se ao estudo da produção cultural voltada aos adolescentes e crianças, pesquisa da qual este livro faz parte. Acreditam que para entender o tempo em que vivemos é preciso debruçar-se sobre os produtos culturais de consumo popular e massivo, de forma pouco preconceituosa. Afinal, naquilo que se dedica a um enorme número de pessoas em fase de formação certamente estão contidas a ideologia e a forma de pensamento que se oferece às novas gerações.
Sobre a Artmed Editora
A Artmed Editora é responsável pela publicação, em português, de livros acadêmicos e profissionais nas áreas de ciências biomédicas, educação e saúde mental. Atua também nas áreas de administração, ciência e tecnologia com o selo Bookman. A empresa possui mais de 1300 títulos em catálogo, com uma média de 400 novas obras lançadas por ano. A Artmed mantém contratos de exclusividade com conceituadas editoras dos Estados Unidos e de diversos países da Europa e da América Latina. Com matriz em Porto Alegre e filial em São Paulo, a empresa conta com uma eficiente rede de distribuição para todo o Brasil e para Portugal e também efetua vendas via Internet.