Garantir dignidade menstrual vai além do acesso a absorventes, alerta UNICEF - Trama
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Garantir dignidade menstrual vai além do acesso a absorventes, alerta UNICEF

UNICEF defende que dignidade menstrual envolve acesso à água, saneamento e higiene, informação de qualidade e ambientes escolares seguros, além da distribuição de absorventes

 

No Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado em 28 de maio, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta que garantir dignidade menstrual exige mais do que a oferta de absorventes. É preciso assegurar infraestrutura adequada, acesso à água, saneamento e higiene, além de promover mudanças culturais para enfrentar os tabus e estigmas ainda associados à menstruação. O UNICEF também convoca famílias, adolescentes, comunidades escolares e gestores públicos a atuarem juntos na construção de espaços seguros, acolhedores e respeitosos para todas as pessoas que menstruam.

Embora a menstruação seja um processo biológico natural, milhares de pessoas que menstruam no Brasil ainda enfrentam dificuldades para vivê-la de forma segura, digna e sem constrangimentos. O impacto é especialmente grave para meninas e adolescentes, cuja frequência escolar, saúde, autoestima e desenvolvimento são diretamente afetados pela falta de banheiros adequados, água, privacidade, informação e acolhimento.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, divulgados este ano pelo Ministério da Saúde, mostram que 15,3% das adolescentes de 13 a 17 anos deixaram de ir à escola ao menos um dia nos últimos 12 meses por falta de absorventes ou outros itens para cuidados menstruais. Nas escolas públicas, o percentual sobe para 16,9%. No Amazonas, quase 3 em cada 10 adolescentes (27,9%) faltaram às aulas pelo mesmo motivo.

Os dados da PeNSE também revelam que, mesmo quando há distribuição de absorventes nas escolas, ainda existem barreiras importantes de acesso. Entre as adolescentes que faltaram à aula por falta de absorvente, mais de 80% estudavam em escolas que informavam oferecer o produto.

“Garantir dignidade menstrual significa garantir condições para que meninas e adolescentes possam permanecer na escola com segurança, privacidade e acolhimento. Isso envolve garantir o acesso a água, saneamento e higiene, incluindo banheiros adequados, informação de qualidade e ambientes livres de estigma”, afirma Gabriela Mora, especialista em Participação e Desenvolvimento de Adolescentes do UNICEF no Brasil.

Além da PeNSE, o relatório conjunto do UNICEF e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) sobre pobreza menstrual no Brasil já havia mostrado, em 2021, a dimensão estrutural do problema. O estudo apontou que 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa e que mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

Segundo o Censo Escolar 2025, mais de 4.600 escolas brasileiras ainda não possuem banheiro, afetando mais de 416 mil estudantes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. A ausência de infraestrutura básica afeta de forma desproporcional meninas e adolescentes que menstruam, especialmente em áreas rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

Para o UNICEF, a dignidade menstrual deve ser tratada como uma questão de direitos e equidade de gênero. “Sem água, saneamento e higiene não existe dignidade menstrual. A desigualdade no acesso à infraestrutura básica também é uma desigualdade de gênero”, reforça Gabriela.

Menstruação ainda é cercada por estigma

Além da infraestrutura, o UNICEF destaca a importância de enfrentar os tabus e estigmas relacionados à menstruação. O silêncio e a desinformação ainda fazem com que muitas meninas sintam vergonha do próprio corpo ou deixem de buscar apoio na escola e nos serviços de saúde.

“A menstruação não pode continuar sendo um tema cercado por constrangimento. Falar sobre dignidade menstrual também é promover informação, acolhimento, proteção e participação de adolescentes na construção de soluções. É muito comum que adolescentes deixem de participar de atividades de esporte, lazer e percam oportunidades de aprender por algo tão natural que jamais deveria ser uma barreira para o seu desenvolvimento”, afirma a especialista.

Nos últimos anos, o UNICEF tem apoiado iniciativas de promoção da dignidade menstrual em diferentes regiões do Brasil, articulando educação, infraestrutura e participação de adolescentes.

Na zona rural de Manaus (AM), por exemplo, estudantes participaram de um hackathon para cocriar soluções de saneamento escolar voltadas à dignidade menstrual. A iniciativa resultou na construção de um banheiro-modelo desenvolvido a partir da escuta de adolescentes, incorporando elementos de privacidade, segurança e conforto adaptados à realidade local.

Crédito: UNICEF/BRZ/Paulo Diógenes

Em 2025, o UNICEF realizou atividades sobre dignidade menstrual em escolas na amazônia e no semiárido brasileiro, alcançando milhares de crianças e adolescentes por meio de oficinas, rodas de conversa, capacitações e ações educativas.

Entre as ações desenvolvidas:

  • 1.216 adolescentes participaram de sessões sobre dignidade menstrual em comunidades ribeirinhas da Amazônia;
  • 2.435 estudantes participaram de atividades de água, saneamento e higiene (WASH) em Manaus;
  • 1.410 crianças e adolescentes participaram de atividades educativas em escolas rurais, indígenas e quilombolas no Ceará;
  • cerca de 10 mil adolescentes foram alcançados por iniciativas de promoção da dignidade menstrual e igualdade de gênero no Maranhão.

O UNICEF também atua para apoiar o fortalecimento de políticas públicas voltadas à dignidade menstrual, apoiando estados e municípios na construção de ambientes escolares mais seguros, inclusivos e preparados para acolher adolescentes sem discriminação e sem tabus.

Apesar dos avanços recentes nas políticas públicas, o UNICEF reforça que ainda é necessário ampliar o debate público sobre o tema e garantir que adolescentes participem da construção das soluções.

“Por muito tempo, a menstruação foi tratada como um assunto que não podia ser nomeado. Não falar sobre menstruação também é uma forma de falar. O avanço começa quando o tema deixa de ser tabu e passa a ser tratado como uma questão de direitos, dignidade e desenvolvimento”, conclui Gabriela Mora.

Para ações de dignidade menstrual no Piauí, o UNICEF Brasil conta com o apoio de Needs, marca própria das farmácias Raia e Drogasil, do grupo RD Saúde. No Amazonas o UNICEF conta com a parceria da WEG.  Para ações de Água, Saneamento e Higiene em escolas de Barcarena (PA), Caucaia (CE) e Manaus (AM), o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica do Instituto Aegea.


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