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O Oscar é um indicador do amadurecimento do audiovisual brasileiro

Rodrigo Gallo**

Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil chega à premiação do Oscar com um filme na disputa, reforçando uma percepção que deveria ser celebrada com mais seriedade: a indústria cinematográfica nacional está performando bem no cenário global. Mais do que um evento isolado ou fruto do acaso, essa recorrência sugere amadurecimento técnico, criativo e institucional, e indica que esse setor da indústria parece ter encontrado o caminho do crescimento.

Quando um País aparece repetidamente em uma premiação do porte do Oscar, não é apenas o filme que se destaca, mas toda uma cadeia produtiva que demonstra capacidade de competir internacionalmente, o que é bom para o setor da cultura e para a economia, obviamente, mas também para a imagem do Brasil no exterior.

Ainda assim, parte do debate público insiste em tratar cinema como algo supérfluo, uma espécie de luxo cultural, um passatempo de elite ou, no máximo, entretenimento. Essa visão é limitada e, francamente, prejudicial. Cinema é arte, sim, mas também é indústria. E como toda indústria, movimenta dinheiro, gera empregos, impulsiona inovação e cria valor agregado.

Um filme como O Agente Secreto não nasce do nada: ele exige roteiristas, atores, figurinistas, técnicos de som, iluminadores, operadores de câmera, montadores, maquiadores, motoristas, produtores, equipes de alimentação, segurança, transporte e pós-produção, isso sem contar o sistema de exibição, que mobiliza cinemas e, consequentemente, funcionários dos mais variados ramos e até mesmo setores da indústria de alimentos. São centenas de profissionais envolvidos direta e indiretamente, muitos deles altamente qualificados, atuando em uma engrenagem que funciona como qualquer outro setor econômico.

Além disso, o audiovisual movimenta setores paralelos de forma significativa. Hotéis, restaurantes, locação de equipamentos, construção de cenários, serviços gráficos, tecnologia e logística se beneficiam diretamente. Em muitos casos, cidades que recebem gravações experimentam picos de consumo e circulação de renda, criando um ciclo virtuoso de atividade econômica local. Ou seja, apoiar cinema não é apenas “investir em cultura”, mas também estimular dinamismo econômico, especialmente em uma economia como a brasileira, que precisa diversificar sua matriz produtiva e gerar empregos em setores criativos e inovadores.

É justamente por isso que leis de incentivo à cultura não devem ser tratadas como privilégio ou gasto desnecessário, mas como ferramenta estratégica de desenvolvimento. Países que compreenderam bem isso, como Estados Unidos, França, Coreia do Sul e Reino Unido, estruturaram políticas públicas robustas para proteger e expandir suas indústrias culturais. E os resultados estão aí: exportação de produtos culturais, fortalecimento de marcas nacionais, geração de recursos e influência internacional. O Brasil, quando investe de maneira inteligente em cultura, também colhe resultados positivos. Quando corta ou deslegitima esse investimento, enfraquece um setor inteiro e desperdiça potencial competitivo.

Então, é importante reforçar que as leis de incentivo à cultura devem ser compreendidas não como privilégio ou concessão, mas como políticas públicas estruturantes, capazes de fortalecer um setor estratégico da economia criativa. Elas funcionam como mecanismos de fomento que reduzem riscos, atraem investimento privado e viabilizam projetos que dificilmente conseguiriam sair do papel apenas pela lógica de mercado, especialmente em países marcados por desigualdade e concentração de recursos. Mais do que financiar filmes, essas políticas sustentam uma cadeia produtiva inteira: são instrumentos de desenvolvimento econômico, inclusão cultural e projeção internacional do País.

Outro ponto que raramente aparece com o peso que merece é o impacto internacional dessas conquistas. Quando um filme brasileiro ganha visibilidade fora do País, ele faz mais do que acumular prêmios: ele projeta a cultura brasileira no exterior. Isso significa ampliar interesse por nossa língua, nossas histórias, nossos artistas, nossos cenários e até mesmo nossos produtos. Cinema também é diplomacia cultural, que molda percepções e cria pontes. Um filme que emociona plateias internacionais faz o Brasil existir simbolicamente no imaginário global de um modo que discursos políticos ou campanhas institucionais dificilmente conseguem.

Nesse sentido, um destaque no Oscar é também uma vitrine econômica. Ele valoriza profissionais brasileiros, atrai coproduções, abre portas para plataformas internacionais e fortalece a imagem do Brasil como produtor de conteúdo sofisticado e relevante. Isso gera oportunidades futuras: contratos, turismo cinematográfico, exportação de serviços criativos e ampliação de mercado. O mundo passa a olhar para o Brasil não apenas como consumidor, mas como fornecedor de produtos culturais de alto nível.

Portanto, o debate não deveria ser se cinema “merece” apoio, mas como transformar o audiovisual em política de desenvolvimento nacional. O Agente Secreto e a presença brasileira no Oscar são motivo de orgulho, mas também um lembrete: quando o Brasil acredita em sua cultura, ele não apenas produz arte, mas também gera emprego, renda e prestígio internacional. E talvez esteja na hora de o País parar de tratar isso como exceção e começar a enxergar como estratégia.

Cinema é política e também, economia.

** Cientista político e coordenador dos cursos da Área de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).


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