Empreendedora
08/06/2008 – 11:27
Toda pessoa é empreendedora
Nobel de 2006 indaga se crescimento brasileiro é inclusivo
Da Redação
Nobel da Paz em 2006, por seu trabalho à frente do banco que concede crédito a pessoas carentes na Índia (o Grameen Bank), o banqueiro e economista Muhammad Yunus voltará ao Brasil esta semana, pela segunda vez, depois de ganhar o prêmio.
Vem participar do I Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em Brasília, numa mesa que discutirá o tema “Justiça social e econômica”.
Por e-mail, Yunus disse ao “Boa Chance” que toda pessoa é um empreendedor em potencial e que os banqueiros deveriam confiar mais nos pobres, especialmente nas mulheres
Bangladesh
O Globo: Em relação ao momento econômico, que país espera encontrar no Brasil?
Muhammad Yunus: O Brasil é um país com grandes recursos em agricultura, mineração, indústria e mão-de-obra. Acho que o Brasil tem explorado com sucesso esses recursos, e é um dos países que crescem mais rapidamente no mundo. O mais importante é saber se esse crescimento é inclusivo, ou seja, se todos têm se beneficiado do processo, incluindo os mais pobres. O que tentamos fazer com a promoção do microcrédito social é garantir que todas as pessoas, especialmente os mais pobres, possam se beneficiar do desenvolvimento.
O que pensa da distribuição do microcrédito no Brasil?
Yunus: Existem programas, e o governo me parece muito interessado em dar suporte ao desenvolvimento do microcrédito. Em Bangladesh, temos uma ampla cobertura. Hoje, cerca de 80% das famílias pobres têm, de alguma forma, acesso ao microcrédito. É uma grande conquista, considerando que iniciamos nosso trabalho em 1976. Nosso objetivo é atingir 100% da população pobre. Tenho defendido que crédito é um direito humano. O sistema financeiro deve incluir todos, independentemente do seu status social.
Como aumentar a participação das mulheres na abertura dos pequenos negócios?
Yunus: Em todo o mundo, os programas de microcrédito são mais voltados para mulheres. A experiência mostra que elas são mais eficazes como agentes de mudança. Quando a mulher recebe o empréstimo, os benefícios são maiores para toda a família e a comunidade. Isso porque elas colocam a família acima de suas necessidades pessoais. O resultado traduz-se em melhor desenvolvimento. No Grameen Bank, mais de 97% dos mutuários são mulheres. Recomendo que o Brasil faça o mesmo, se quiser promover mudanças mais rapidamente.
Na Índia a situação das mulheres melhorou desde que o seu Nobel saiu? Suas idéias influenciaram outras pessoas?
Yunus: Não sei qual foi o impacto direto entre as mulheres. Entretanto, o prêmio deu visibilidade ao nosso trabalho e ao papel do microcrédito na redução da pobreza e da emancipação das mulheres. Governos e outros atores sociais têm adotado programas com mais entusiasmo.
Qual a sua visão sobre o empreendedorismo?
Yunus: Sempre disse que toda pessoa tem um espírito empreendedor. Nos livros de teoria econômica, o empreendedor é uma pessoa especial. Eu discordo disso completamente. Acredito que todo mundo, inclusive os mais pobres, é um empreendedor e precisa de uma oportunidade para desenvolver o seu potencial.
Qual o seu conselho para os banqueiros brasileiros?
Yunus: A base da minha tese tem sido essa: é preciso confiar mais nos pobres e, mais especificamente, nas mulheres. Os bancos, no entanto, continuam relutantes em fazê-lo, apesar da nossa experiência em Bangladesh, que registra taxa de reembolso de 100%.