Prêmio Nobel critica o etanol do milho
11-06-2008 – São Paulo – Rajendra Pachauri, presidente do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (IPCC, sigla em inglês) das Nações Unidas, recomenda uma mudança nas políticas de produção de biocombustíveis a partir de comida, especialmente do milho, e critica os subsídios agrícolas dos países desenvolvidos. "Esta não é uma política boa (produzir etanol do milho).
Ela precisa ser reavaliada.
Há muita gente passando fome neste mundo e quando o preço da comida sobe 100% como é que eles vão se alimentar? E, ao mesmo tempo, os subsídios agrícolas norte-americanos dificultam a produção dos agricultores dos países em desenvolvimento", comenta o economista indiano que recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2007, juntamente com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Pachauri compartilha a mesma opinião do governo brasileiro de que etanol feito a partir do milho é um dos fatores responsáveis pelo aumento dos preços dos alimentos.
"Acredito que essa política tem que ser reconsiderada", afirma o economista ontem, em breve visita ao Brasil. O economista também enumera como responsáveis pela alta nos preços das commodities o crescimento da demanda, basicamente, devido ao crescimento população mundial, o aumento da renda, e conseqüentemente o aumento do consumo de carnes, como a de frango na China, que se alimentam de rações a base de soja, por exemplo.
No entanto, ele não se mostra muito entusiasmado com o etanol brasileiro (a partir da cana-de-açúcar) e procura destacar a hidroeletricidade como um dos grandes trunfos de energia alternativa e não poluente do Brasil. O presidente do IPCC reconhece a soberania brasileira sobre a Amazônia e faz elogios ao Brasil, especialmente quanto ao fato de o País possuir alguns setores em que se destaca e é líder, como a produção de aviões. "O Brasil é um país diversificado.
Tem uma sociedade muito dinâmica e com grande habilidade tecnológica, especialmente na manufatura de aviões e na área de consultoria de engenharia", diz ele, acrescentando que o fator preocupante "é o mesmo que existe em outros países como a Índia: a enorme lacuna entre ricos e pobres". Citando um outro ponto negativo para o Brasil, Pachauri destaca o transporte público.
"Não acredito que o Brasil seja um bom exemplo disso.
Ele não está muito avançado nesse sentido.
"
O relatório do IPCC de 2007 destaca que o custo para controlar as emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa girava em torno de 3% do Produto Interno Bruto mundial.
Para Pachauri, com uma conscientização é possível que seja necessário bem menos do que 3% para evitar as conseqüências de um aquecimento global. O economista indiano declara-se otimista em relação à conscientização da sociedade e do governo sobre os riscos do aquecimento global.
"Não será fácil mas acredito que o mundo se conscientize e adote medidas para transformar o mundo em um lugar melhor no longo prazo", afirma ele acrescentando que o fato de a maior parte do mundo ser governado por democracias faz com que esse caminho seja trilhado mais facilmente. Em relação aos Estados Unidos, o país mais poluidor do mundo, Pachauri disse acreditar que após as eleições presidenciais (elas ocorrem em novembro) haverá uma mudança no posicionamento dos EUA em relação ao Protocolo de Kyoto. "Acredito que essa mudança deva acontecer já a partir do próximo anos, quando os EUA finalmente deverão acatar as determinações do Protocolo de Kyoto", afirma.
"Está na hora de os Estados Unidos serem também parte da solução e não somente parte do problema do aquecimento global.
"
Pachauri chegou a São Paulo na manhã de ontem e logo no final da tarde viajou para Brasília, onde irá participar hoje da abertura do I Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, organizado pela consultoria Atitude Brasil.
Outro vencedor do Prêmio Nobel, Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank, o banco dos pobres, também participará do evento.
O fórum termina amanhã. (Fonte: Gazeta Mercantil/Rosana Hessel) |