Enquanto quase 40% dos analistas receiam ser substituídos, somente 3% dos líderes têm a mesma expectativa

Embora eles sejam os que mais usam a inteligência artificial generativa no seu trabalho diário, os analistas pertencem a um dos grupos de profissionais que mais temem ser substituídos pela nova tecnologia. Um temor que diminui à medida que se sobe na hierarquia corporativa, uma vez que gestores e lideranças acreditam estar menos vulneráveis à perda do emprego com a implementação do uso da ferramenta.
Esses dados fazem parte de uma pesquisa realizada pela consultoria brasileira EDC Group, com atuação na América Latina e Estados Unidos, que ouviu 549 profissionais, em diversos estados brasileiros. “É uma contradição interessante. Ao mesmo tempo que os analistas e assistentes têm receio de serem substituídos, eles também são os maiores usuários da IA generativa”, diz Daniel Campos Neto, CEO da EDC Group.
Na pesquisa, 43% dos respondentes que ocupam funções de auxiliares e assistentes temem perder o emprego por conta da implementação da IA generativa, seguidos pelo grupo dos analistas, com 39,66%. Campos Neto lembra que esses trabalhadores, geralmente estão no início da carreira e exercem tarefas mais operacionais e repetitivas, justamente onde a IA generativa pode ajudar a gerar mais produtividade.
O levantamento também evidencia que conforme o nível hierárquico sobe, o medo diminui, caindo para 3% entre aqueles que ocupam cargos de gerência e liderança. “A percepção de quem está em um nível mais alto é mais tranquila, porque existe um entendimento de que a sua função não será substituída pela IA”, diz Campos Neto.
Para ele, o nível mais alto da hierarquia ainda acredita que não precisa usar muito a IA generativa, portanto, não se sente ameaçado. “Ele é o trabalhador do conhecimento”. Mas o CEO acredita que o gestor que ainda não usa a ferramenta deveria estar preocupado no sentido de que precisará utilizar. “A IA é como a energia elétrica há 200 anos atrás, ou você usa ou você usa ou você usa”, afirma. “O gestor que só controla, supervisiona, aquele do comando e controle pode ser substituído por uma IA que pode ser programada para fazer supervisão, ver se alguém subiu um relatório ou mandou um e-mail. O gestor que lidera, engaja, envolve e traz características humanas para a liderança vai ter sempre emprego”, observa.
Uma maneira de diminuir o medo da IA generativa, segundo Campos Neto, é promovendo um letramento digital na companhia. “É preciso explicar para que ela serve, que se trata de um meio e não um fim”, diz. Ele lembra que a ferramenta pode ler manuais e documentos muito rápido e executar tarefas repetitivas muito bem. “Se você der um manual de 400 páginas, ela vai ler em 5 segundos e executar a tarefa de acordo com ele de forma perfeita. Para atividades repetitivas, que dependem de atenção, como conferir um relatório financeiro, revisar coisas, ela vai fazer muito melhor que você”, afirma. “É como ter um estagiário super proativo à sua disposição”.
Mas, não dá para esquecer que quem está no comando da IA generativa é sempre um humano, diz. “Se você mandar fazer uma coisa inútil, ela vai fazer uma coisa inútil”. Por isso, para tirar o melhor proveito da nova tecnologia é preciso capacitar os gestores para explicar para os analistas e os auxiliares que esta não é uma mudança que ocorre do dia para a noite. “É um trabalho de longo prazo”, ressalta. Ele conta que na EBC, que tem 350 funcionários, o trabalho de letramento começou há um ano e meio. “Educação é repetição”, enfatiza.
Ele recomenda que os gestores sejam os primeiros a serem preparados na empresa, porque eles serão os disseminadores desse conhecimento. “Se esse gestor se sentir ameaçado, ele não vai querer trazer essa ameaça para dentro”, alerta. Campos Neto diz que os líderes precisam ter segurança emocional para disseminar a mensagem e não boicotá-la.
Outro ponto importante na implementação da IA generativa é ter na ponta alguém que valida a informação. “Um erro comum é pegar a resposta de uma IA generativa, como ChatGPT, Bing, Gemini, copiar, colar e mandar para o cliente, achando que aquela resposta é a verdade absoluta”, afirma. “Tem que treinar as pessoas, tem que ter um certo julgamento”.
A estratégia de disseminação, segundo ele, começa pelo letramento de quem vai ver maior ganho para a empresa com seu uso, como os gestores que têm equipes que fazem muitos trabalhos repetitivos. “Na minha empresa, crio metas trimestrais de uso de IA para esses líderes”, explica.
A faixa etária dos usuários também foi observada no levantamento. Segundo a pesquisa, 83,08% dos profissionais que usam IA generativa têm entre 18 e 34 anos, e 73,08% dos que não fazem uso da ferramenta têm mais de 35 anos. Segundo Campos Neto, uma característica dos mais jovens é que eles usam a IA generativa, que é um Large Language Model (LLM) ou um grande modelo de linguagem, sem muito diálogo. “Eles querem respostas imediatas, então usam uma Ferrari sempre na primeira marcha. Se não houver diálogo, como você vai extrair o máximo de uma ferramenta de linguagem?”, questiona. Ele conta que, na sua empresa, treinou os gestores para que as perguntas ou os chamados “prompts” para a IA generativa tenham pelo menos 10 linhas. “O letramento do líder é sobre mostrar que uma boa pergunta vai fazer a diferença. É isso que ele vai passar para os mais jovens”.
Um dos achados que o surpreendeu da pesquisa foi relativo ao ganho de produtividade. Dos 65% respondentes que usam a IA generativa no trabalho, 48% concordam apenas parcialmente que ela pode ser extremamente útil para melhorar a eficiência e a qualidade do que fazem. Somados com aqueles que concordam totalmente, o percentual sobe para 69%. “Para mim foi um dado contra intuitivo, eu achava que todo mundo ia dizer que conseguiu uma super produtividade”, diz. “Eu até já ajustei o meu discurso, trata-se de uma ferramenta que ajuda, melhora, mas depende muito do tipo de trabalho e de função.”