No Brasil, mortalidade de recém-nascidos e menores de cinco anos alcança menor número das últimas décadas
GENEBRA/NOVA IORQUE, 17 de março de 2026 – No mundo, cerca de 4,9 milhões de crianças morreram antes de completar cinco anos em 2024, incluindo 2,3 milhões de recém‑nascidos, de acordo com novas estimativas divulgadas hoje. A maioria dessas mortes poderia ter sido evitada com intervenções comprovadas, de baixo custo, e com acesso a serviços de saúde de qualidade. No Brasil, a mortalidade infantil vem caindo ano após ano, alcançando os menores patamares das últimas décadas.
Segundo o relatório Levels & Trends in Child Mortality, produzido pelo Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME) , as mortes de crianças menores de cinco anos caíram em mais da metade, globalmente, desde 2000. Mas desde 2015, o ritmo de redução da mortalidade infantil desacelerou mais de 60%.
O relatório deste ano fornece o panorama global mais claro e detalhado já produzido sobre quantas crianças, adolescentes e jovens estão morrendo, onde estão morrendo e — pela primeira vez — integra completamente as estimativas sobre as causas de morte.
“Nenhuma criança deveria morrer de doenças que sabemos como prevenir. Mas vemos sinais preocupantes de que esse progresso está desacelerando — e num momento em que estamos vendo cortes adicionais no orçamento global”, disse Catherine Russell, Diretora Executiva do UNICEF. “A história mostrou o que é possível quando o mundo se compromete a proteger suas crianças. Com investimento sustentado e vontade política, podemos continuar construindo sobre esses avanços para as futuras gerações”.
No Brasil, um conjunto de políticas adotadas nacionalmente têm diminuído as mortes preveníveis de crianças, em consonância com a tendência global. O estudo mostra que o País alcançou as menores taxas de mortalidade neonatal e abaixo dos cinco anos dos últimos 34 anos.
Em 1990, a cada mil crianças nascidas, 25 morriam ainda recém-nascidas, antes de completar 28 dias de vida. Em 2024, o número caiu para sete a cada mil.
O mesmo aconteceu com a probabilidade de morrer antes dos cinco anos de idade. No Brasil, em 1990, a cada mil crianças que nasciam, 63 faleciam antes do quinto aniversário. Nos anos 2000, a taxa caiu para 34 a cada mil e, em 2024, chegou a 14,2 mortes.
Um conjunto de políticas adotadas no Brasil contribuiu para esses resultados. O Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a Política Nacional de Atenção Básica e a expansão da rede pública de saúde foram algumas das iniciativas que ajudaram a promover a saúde de mães, bebês e crianças desde os anos 1990 e foram operacionalizadas com o apoio da sociedade brasileira e do UNICEF (saiba mais abaixo).
“Estamos falando de milhares de bebês e crianças que não sobreviveriam, e hoje podem crescer, se desenvolver com saúde e chegar até a vida adulta”, explica Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil. “E essa mudança foi possível porque o Brasil escolheu investir em políticas que funcionam, como a vacinação e o incentivo à amamentação. Agora, precisamos voltar a acelerar esses esforços, mantendo e ampliando os avanços históricos das últimas décadas e alcançando aqueles nos quais essas políticas ainda não chegam como deveriam”, diz.
O Brasil também viu uma desaceleração na queda da mortalidade de crianças na última década, em linha com a tendência global. Entre 2000 e 2009, o País diminuía em 4,9%, todos os anos, a mortalidade de recém-nascidos. Já entre 2010 e 2024, a redução passou a ser de 3,16% ao ano.
Causas de mortes
Pela primeira vez, o relatório estima as mortes causadas diretamente pela desnutrição aguda grave globalmente, constatando que mais de 100 mil crianças com idades entre um mês e quatro anos e 11 meses — cerca de 5% do total — morreram dessa condição em 2024. Mas o impacto é muito maior quando se consideram os efeitos indiretos, já que a desnutrição enfraquece a imunidade e aumenta o risco de morte por doenças comuns da infância. Os dados de mortalidade também costumam falhar em registrar a desnutrição como causa subjacente, e recém‑nascidos com menos de um mês não estão incluídos nessa estimativa, sugerindo que o problema é substancialmente subestimado. Alguns dos países com maiores números de mortes diretas por desnutrição incluem Paquistão, Somália e Sudão.
As mortes neonatais são quase metade de todos os óbitos de menores de cinco anos, refletindo o progresso mais lento na prevenção de mortes no período ao redor do nascimento. As principais causas entre recém‑nascidos foram complicações da prematuridade (36%) e complicações durante o parto (21%). Infecções, incluindo sepse neonatal e anomalias congênitas, também foram causas importantes.
Após o primeiro mês de vida, doenças infecciosas como malária, diarreia e pneumonia foram grandes responsáveis pelas mortes. A malária continuou sendo a principal causa de morte nessa faixa etária (17%), com a maioria das mortes ocorrendo em áreas endêmicas da África Subsaariana. Depois de quedas acentuadas entre 2000 e 2015, o progresso desacelerou nos últimos anos. As mortes permanecem concentradas em um pequeno grupo de países endêmicos — como Chade, RDC, Níger e Nigéria — onde conflitos, choques climáticos, mosquitos invasores, resistência a medicamentos e outras ameaças biológicas continuam afetando o acesso à prevenção e ao tratamento.
As mortes infantis permanecem altamente concentradas geograficamente. Em 2024, a África Subsaariana foi responsável por 58% de todas as mortes de menores de cinco anos. Nessa região, as nove principais doenças infecciosas – infecções respiratórias (pneumonia), malária, diarreia, sepse, meningite/encefalite, tuberculose, sarampo, HIV/AIDS e tétano – causaram 54% desses óbitos. Na Europa e América do Norte, e na Austrália e Nova Zelândia, essa proporção cai para 9% e 6%, respectivamente. Essas diferenças refletem o acesso desigual a intervenções comprovadamente capazes de salvar vidas.
No Sul da Ásia, que concentrou 25% de todas as mortes de menores de cinco anos, a mortalidade foi impulsionada principalmente por complicações no primeiro mês de vida — incluindo parto prematuro, asfixia/trauma no parto, anomalias congênitas e infecções neonatais. Essas condições amplamente evitáveis destacam a urgência de investir em cuidados pré‑natais de qualidade, profissionais de saúde qualificados, cuidados para recém‑nascidos pequenos e doentes e serviços essenciais de saúde neonatal.
Países frágeis e afetados por conflitos continuam carregando uma parcela desproporcional dessas mortes. Crianças nascidas nessas situações têm quase três vezes mais chance de morrer antes dos cinco anos do que aquelas em outros contextos.
Mortalidade entre adolescentes e jovens
O relatório também revela que aproximadamente 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens entre cinco e 24 anos morreram em 2024. Doenças infecciosas e lesões continuam sendo as principais causas de morte entre crianças mais novas, enquanto na adolescência os riscos mudam: globalmente, o suicídio é a principal causa entre meninas de 15 a 19 anos; e os acidentes de trânsito entre os meninos, na mesma faixa etária.
Já no Brasil, no mesmo ano, a violência foi responsável por quase metade (49%) das mortes de meninos de 15 a 19 anos, com doenças não-transmissíveis ocupando o segundo lugar (18%). Acidentes de trânsito foram a terceira causa mais comum (14% das mortes). Entre meninas na mesma faixa etária, doenças não-transmissíveis foram a principal causa de morte (37%), seguidas por doenças transmissíveis (17%), pela violência (12%) e pelo suicídio (10%).
Recomendações
Mudanças no cenário global de financiamento para o desenvolvimento — incluindo a queda na ajuda internacional — estão colocando programas essenciais de saúde materna, neonatal e infantil sob crescente pressão. Pesquisas, sistemas de informação em saúde e funções essenciais que sustentam os serviços de saúde precisam de financiamento contínuo não só para preservar os atuais avanços, mas para acelerá‑los.
As evidências mostram que investimentos em saúde infantil estão entre as medidas de desenvolvimento mais custo‑efetivas. Intervenções comprovadas e de baixo custo — como vacinas, tratamento da desnutrição e profissionais de saúde qualificados na gestação, parto e pós-parto — dão alguns dos maiores retornos em saúde global, aumentando a produtividade, fortalecendo economias e reduzindo gastos públicos futuros. Cada dólar investido na sobrevivência infantil pode gerar até vinte dólares em benefícios sociais e econômicos.
Para acelerar o progresso e salvar vidas, governos, doadores e parceiros devem:
- Tornar a sobrevivência infantil uma prioridade política e financeira, com compromisso dos países mais afetados para mobilizar recursos internos e ampliar o acesso a serviços de qualidade, baseados em evidências e acessíveis a todos.
- Focar naqueles em maior risco, especialmente mães e crianças na África Subsaariana e no Sul da Ásia, e em contextos frágeis e de conflito.
- Fortalecer o cumprimento dos compromissos existentes para reduzir mortes maternas, neonatais e infantis, incluindo registro de dados de forma transparente, assim como monitoramento e a divulgação.
- Investir em sistemas de atenção primária à saúde para prevenir, diagnosticar e tratar as principais causas de morte entre crianças, incluindo por meio de agentes comunitários de saúde e assistência qualificada no parto.
Trabalho do UNICEF no Brasil
No Brasil, o UNICEF atua apoiando governos a adotar e melhorar políticas públicas de saúde para crianças, adolescentes e suas famílias, com foco naqueles que vivem nos territórios mais vulnerabilizados.
Uma dessas iniciativas é a UAPI – Unidades Amigas da Primeira Infância, que visa capacitar e apoiar profissionais de saúde, educação e assistência social para promover serviços de qualidade a bebês, crianças e suas famílias. Em 2025, as unidades apoiadas pelo UNICEF tiveram um aumento em 40% da vacinação de rotina de crianças e de 22% do registro de amamentação exclusiva de bebês de até 6 meses.
Outro trabalho é dedicado às crianças indígenas, que estão entre as mais vulneráveis à mortalidade infantil. No ano passado, quase 800 profissionais de saúde que atuam em unidades de saúde em territórios indígenas receberam capacitações do UNICEF para prevenir doenças prevalentes na infância. O UNICEF também distribuiu mais de 69 mil unidades de suprimentos alimentares nutricionais para prevenir e tratar a desnutrição entre bebês e crianças nessas regiões.
As ações do UNICEF, assim como as políticas públicas realizadas pelo governo brasileiro, fizeram diferença na vida de crianças como Frank Davi, de 4 anos. Há 2 anos, o menino estava em situação de desnutrição grave e pneumonia quando foi encontrado por equipes de saúde apoiadas pelo UNICEF na fronteira entre o Brasil e Venezuela, em Roraima (RR). Ele recebeu atendimento médico ao longo de meses e se recuperou totalmente: “hoje ele pula, grita e brinca com os irmãos, e isso me dá paz”, diz Isadora Indira, mãe de Frank. Conheça a história clicando aqui.
Para suas ações com foco na saúde integral de crianças, o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica de Grupo Profarma, Infinis, Pfizer e Takeda. Para programas voltados para a promoção da saúde materna, o UNICEF no Brasil mantém uma parceria estratégica com Kimberly-Clark e MSD, por meio do programa global MSD para Mães. Para as Unidades Amigas da infância (UAPI), o UNICEF conta ainda com a parceria estratégica de Roche.
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Notas para editores:
1 – O UN IGME é liderado pelo UNICEF e inclui a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Grupo Banco Mundial e a Divisão de População do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA).
2 – Isso é possível porque o Grupo Interagencial da ONU para Estimativas de Mortalidade Infantil unificou os dados globais de mortalidade infantil e causas de morte em seu relatório principal, integrando totalmente as estimativas do grupo Child and Adolescent Causes of Death Estimation (CA CODE) — um consórcio de pesquisa liderado pela Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins.
As mortes de crianças continuam diminuindo globalmente, embora dados atualizados e métodos aprimorados signifiquem que as estimativas desta edição estão um pouco mais altas do que as relatadas no ano anterior. As estimativas do UN IGME não são diretamente comparáveis entre edições, pois cada atualização incorpora novos dados de pesquisas, censos e registros civis, números revisados de população e nascimentos, e mudanças na cobertura dos países.
Leia o relatório completo aqui (em inglês).