*Por Daniel M. Campos Neto, CEO da EDC Group

Imagem: PeopleImages.com – Yuri A/Shutterstock
Nos últimos anos, a saúde mental se tornou uma pauta central dentro das empresas. O burnout, por exemplo, é reconhecido oficialmente pela OMS e passou a simbolizar o esgotamento extremo causado por sobrecarga de demandas, prazos apertados e pressão constante por resultados. Esse fenômeno ganhou tanta visibilidade que levou muitas organizações a repensarem suas práticas, reforçarem programas de apoio psicológico e discutirem abertamente os limites do trabalho.
Mas, enquanto as atenções estão voltadas para o excesso, outro problema surge em silêncio. Em meio a rotinas repetitivas, tarefas burocráticas e falta de propósito, muitos profissionais começaram a experimentar uma forma diferente de sofrimento, menos conhecida, mas igualmente prejudicial. Se trata do Rust Out, uma síndrome marcada pela apatia, falta de desafios e pelo desgaste emocional provocado pela estagnação.
O risco invisível para empresas e profissionais
Ao contrário do burnout, que escancara seus sintomas com exaustão e sobrecarga, o Rust Out se manifesta em silêncio: tédio, falta de engajamento e queda gradual na motivação. É justamente por ser discreto que costuma passar despercebido, tanto por líderes quanto pelos próprios profissionais.
Pesquisas mostram que o fenômeno não é raro. O livro Boreout! Superando a Desmotivação no Local de Trabalho já apontava, em 2007, que cerca de 15% dos trabalhadores de escritório estavam a caminho do tédio crônico. Mais recentemente, a Revista Nature publicou estudo com educadores no Reino Unido e Irlanda revelando sintomas claros de Rust Out mesmo entre profissionais apaixonados pela profissão.
A longo prazo, o impacto é devastador. Enquanto colaboradores satisfeitos são 85% mais eficientes e 300% mais inovadores (Harvard Business Review), funcionários desmotivados podem ser 125% menos produtivos do que aqueles que se sentem engajados e inspirados (Bain & Company), além de contaminarem o clima organizacional.
Sintomas que não podem ser ignorados
O Rust Out se traduz em apatia persistente, dificuldade de concentração, procrastinação e desinteresse pelo trabalho. Muitas vezes, a pessoa cumpre as tarefas, mas sente que não está crescendo nem sendo desafiada. Essa sensação corrói o bem-estar e pode gerar insônia, baixa autoestima e até problemas de saúde mental.
Além disso, alguns sinais sutis costumam passar despercebidos, mas funcionam como alertas importantes: atrasos em tarefas rotineiras que antes eram entregues no prazo, queda na participação em reuniões e aumento da apatia ou da indiferença diante de cobranças.
É um mal invisível porque, de fora, parece apenas acomodação. Porém, ficar preso nessa situação leva à frustração frequente e mina o potencial de profissionais talentosos. Não é falta de ambição, é falta de propósito.
O papel das empresas e líderes
Enquanto as empresas tratam o burnout como prioridade, o Rust Out segue subestimado. Culturalmente, o esgotamento gera urgência. Por outro lado, a estagnação é vista como falta de atitude. Porém, como qualquer outra síndrome, o Rust Out é um risco real para a saúde mental e deve estar na agenda de bem-estar corporativo.
Cabe ao RH e às lideranças criar mecanismos para detectar os sinais precoces, seja por meio de diagnósticos de clima ou conversas abertas sobre desmotivação. Além disso, mais do que identificar, é essencial que empresas criem condições para prevenir o Rust Out no dia a dia.
Isso significa oferecer cargos com variedade e autonomia, promover pausas produtivas, incentivar a autoconsciência dos colaboradores e abrir espaço para conversas francas sobre desmotivação sem estigmas. Pequenas ações, como dividir tarefas repetitivas ou ajustar funções às habilidades individuais, podem transformar rotinas entediantes em experiências de aprendizado e crescimento, reforçando o bem-estar e a motivação coletiva.
Um chamado para o futuro do trabalho
Vivemos uma era em que novas gerações buscam propósito acima de estabilidade. Uma pesquisa do Sebrae indicou que jovens entre 18 e 24 anos priorizam trabalhar com o que gostam e equilibrar vida pessoal e profissional, mais do que simplesmente ganhar bem. Outro levantamento da Edelman mostrou que 59% dos profissionais deixaram empregos por falta de alinhamento com seus valores.
Ou seja. Ignorar o Rust Out é correr o risco de perder talentos valiosos. Em um cenário de escassez de mão de obra qualificada, é uma ameaça que nenhuma empresa pode se dar ao luxo de negligenciar. Mais do que combater o tédio, precisamos ressignificar o trabalho como espaço de propósito e desenvolvimento. Porque, no fim, não é apenas sobre produtividade, é sobre um trabalho que merece sentido e que tenha um propósito. que precisam de sentido.