Pesquisa da Agenda Pública mostra que iniciativas de redução de danos ambientais já impactam cadeias produtivas estratégicas e exigem requalificação e diversificação econômica
São Paulo, março de 2026 – A transição para uma economia de baixo carbono já está impactando o mercado de trabalho brasileiro — e seus efeitos variam significativamente conforme a atividade econômica e o território. É o que revela o estudo Empregos do Futuro – Transição Justa para Economias de Baixo Carbono, realizado pela Agenda Pública, que analisou dados de 2018 a 2024 em seis cadeias produtivas estratégicas do país: petróleo e gás (Rio de Janeiro), petroquímica (Bahia e Pernambuco), indústria automotiva (São Paulo), mineração (Pará, Maranhão e Minas Gerais) e agropecuária extensiva (Mato Grosso).
O levantamento mostra que a transição climática não é apenas uma agenda ambiental, mas uma transformação estrutural que já redesenha o emprego, a renda e a competitividade regional no Brasil.
“A transição verde não é um fenômeno do futuro — ela já está acontecendo e impactando empregos concretos em territórios específicos. O desafio não é escolher entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade, mas garantir que a adaptação produtiva seja planejada para proteger trabalhadores e ampliar oportunidades”, afirma Sergio Andrade, diretor executivo da Agenda Pública.
Indústria automotiva: efeitos já visíveis
Na indústria automotiva paulista, a mudança tecnológica já produz efeitos concretos. Municípios tradicionais do ABC registraram queda relevante nos vínculos formais no setor entre 2018 e 2024, refletindo os impactos da eletrificação e da digitalização da mobilidade.
O estudo aponta São Bernardo do Campo como território “crítico” em capacidade de transição, enquanto São Caetano do Sul aparece como “resiliente”, evidenciando que o futuro do emprego industrial depende menos da atividade em si e mais da diversificação econômica e da qualificação da força de trabalho.
“A eletrificação e a digitalização da mobilidade exigem novas competências. Territórios que investem em inovação e qualificação conseguem absorver melhor essa transformação. Onde isso não ocorre, o risco de perda estrutural de empregos é maior”, destaca Andrade.
Petróleo e gás: dependência e necessidade de diversificação
No Rio de Janeiro, a cadeia de petróleo e gás segue como motor econômico, com forte geração de massa salarial e alta dependência em municípios como Macaé e Rio das Ostras. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta elevada vulnerabilidade territorial diante da volatilidade do setor e da agenda global de descarbonização.
A capital fluminense, mais diversificada, apresenta maior capacidade adaptativa. O desafio, segundo o estudo, é transformar infraestrutura e receitas oriundas da atividade fóssil em base para novos segmentos, como energia offshore e economia azul, evitando perdas abruptas de emprego.
“Territórios altamente dependentes de uma única cadeia produtiva ficam mais expostos a choques. A transição justa significa usar os ativos existentes para criar novas frentes econômicas antes que o impacto negativo se consolide”, afirma o diretor executivo.
Mineração: risco social e necessidade de agregação de valor
Na mineração, os contrastes regionais são marcantes. Em municípios do Pará e do Maranhão, grande parte da massa salarial está concentrada na atividade mineral, com baixa diversificação econômica e forte presença de jovens na população local. Isso amplia o risco social caso a transição não seja acompanhada de estratégias de agregação de valor, industrialização local e qualificação profissional.
Em Minas Gerais, a reconversão minerometalúrgica e a adoção de tecnologias de menor emissão aparecem como caminhos para manter competitividade e empregos no médio prazo.
Agropecuária extensiva: competitividade sob pressão
Na agropecuária extensiva de Mato Grosso, cinco municípios analisados concentram mais de 22 mil vínculos formais diretos no setor. Em alguns deles, mais da metade dos empregos e da massa salarial dependem da atividade agropecuária, o que eleva a exposição a oscilações de mercado e às exigências ambientais internacionais.
O estudo indica que práticas como agricultura de precisão, sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta e bioinsumos podem preservar competitividade e gerar novos perfis ocupacionais, mas exigem investimentos em qualificação técnica e inovação produtiva.
Petroquímica: reconversão industrial no Nordeste
Na petroquímica do Nordeste, especialmente na Bahia e em Pernambuco, polos industriais consolidados enfrentam a necessidade de modernização tecnológica e redução de emissões. A presença de uma base jovem relevante amplia o potencial de requalificação, mas a atualização do parque industrial é condição para evitar perda de competitividade e estagnação do emprego formal.
Índice inédito mede capacidade de adaptação
O estudo apresenta ainda o Índice de Capacidade de Transição Sustentável Municipal (ICTSM), ferramenta que combina dependência setorial, vulnerabilidade socioeconômica, capital humano e capacidade institucional.
A principal conclusão é que não é a atividade econômica que determina isoladamente o futuro do território, mas sua capacidade de diversificar, qualificar trabalhadores e coordenar políticas públicas.
“A transição climática pode ampliar desigualdades regionais se não for acompanhada de políticas territorializadas. Mas, se bem conduzida, pode gerar empregos mais qualificados, fortalecer cadeias produtivas e posicionar o Brasil de forma mais competitiva na economia global de baixo carbono”, conclui Sergio Andrade.